Você é um escândalo

Publicação original: Acidez Crônica (nov/14) | Obvious (nov/14)

Os anos 20 foram incríveis. Década de Coco Chanel e Charles Chaplin. O jazz soava com toda a força e energia. A dança era o charleston. As saias subiram. As mangas caíram. O chapéu, só de dia. Bocas vermelhas. Olhos muito pretos. Cabelos curtos.

Surge o rádio, cinema. Dadaismo, surrealismo, arte moderna. No norte, American way of life. No sul a paulicéia, desvairada ao presenciar a antropofagia da modernidade em todas as formas de expressão artística. Klaxon. Centenário da independência. É tempo de provocação.

Nesta atmosfera leve, nova, de vanguarda. Em momento de se dizer o que pensa, de não medir consequência. Neste tempo de toda provocação, de liberdade, de sensualidade. Neste tempo reina soberana Patrícia. Encantada por provocar, subverter, amar. Este tempo é todo dela. A musa do modernismo. Aos 15 anos, a menina já escrevia para o Jornal do Brás. Já provocava com seus cigarros na rua, absolutamente proibidos para uma mulher. E cabelos soltos, um horror. Aos 18 subverte o casamento. Leva Oswald de Tarsila.

Coragem é também vanguarda. Coragem tem de sobra esta mulher, agora Pagu. Encanta-se pelo comunismo. O comunismo era a vanguarda. Era o novo. Ela entrevista Prestes na Argentina e contamina-se da paixão. Pena que findaram os anos 20. Para todo tempo tem um contratempo. E os anos 30 vêm pesados, soturnos, sombrios. Em Santos, 1931, acontece uma greve dos estivadores. Lá estava ela, apoiando, soltando a voz, gritando seus pensamentos. Mas não impunemente. Pagu foi presa. A primeira mulher a ser presa por motivos políticos em nosso país. O partido a abandona. Ora, nenhum destes homens tem coragem de Pagu.

Perseguida pela polícia decide sair do Brasil. Viaja para a China e encanta o imperador. Viaja para a Rússia e desencanta-se com o comunismo: “gente pobre nas ruas e luxo para os burocratas”. Volta ao Brasil, e continua a militar pelo socialismo, 23 vezes é presa, torturada pelo governo Vargas. Pesava 44 quilos quando saiu da prisão pela última vez. Ossos quebrados. Quanta dureza para dobrar uma mulher. Uma mulher que sabe dizer não.

E não pode se calar. Pagu escreve, traduz, produz críticas literárias e ate histórias policiais. Entrega-se ao teatro. Dirige, atua, constrói o teatro, organiza festivais. “É preciso sempre despertar o sono do mundo”.

Encontra Geraldo Ferraz, seu segundo marido, um grande cúmplice, um grande amor. Pagu nos deixa uma lição de coragem, de amor, de paixão. Pagu nos ensina a não calar. Até o fim. Na hora de sua morte, sufocada por um câncer nos pulmões, suas últimas palavras são: “desabotoa minha gola”. Pagu precisa de ar, precisa gritar.

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