Quem tem medo de tecnologia?

Nada grandioso entra na vida dos mortais sem um custo. Sófocles

children-593313_1280.jpg

A novidade apavora. O medo paralisa. O primeiro reflexo manda ignorar. Procuramos os defeitos e tentamos nos convencer de que estamos bem demais para correr o risco de alguma mudança. Acha que não? Então vou transcrever uma citação e você vai tentar adivinhar de qual tecnologia estamos falando. Não vale ler antes, tente adivinhar. Isso se você não conhece a citação, claro!

“Pois esta invenção vai produzir esquecimento na consciência daqueles que aprenderem a usá-la, porque estes deixarão de treinar a memória. Sua confiança na [nova tecnologia], produzida por caracteres externos que não fazem parte deles, vai desencorajar o uso de sua própria memória, contida dentro deles. Vocês inventaram um elixir não da memória, mas da lembrança; e oferecem a seus pupilos a aparência da sabedoria, e não a sabedoria verdadeira.”

Qual será esta tecnologia ameaçadora de empobrecimento intelectual? Adivinhou? Estas palavras são de “Platão (ecoando Sócrates, que não escrevia)” e a tal tecnologia é a escrita.

Você concebe o mundo sem a escrita? Não tem como. Porém, o posicionamento da escrita como tecnologia dominante, naquele momento, abalou crenças, modificou o pensamento, alterou o futuro. O alfabeto desbancou outras formas de registro – os ideogramas por exemplo – e, consequentemente, alterou a percepção e a forma de uso e de desenvolvimento do nosso cérebro.

Neste momento em que nos encontramos, passamos por uma situação semelhante. Este momento histórico instigante e perigoso (!) nos apresenta, chega a nos impor, uma mudança de paradigma. Nada mais é como era antes, para desespero dos saudosistas. Para desafio aos que temem as novas tecnologias.

A internet alterou nossa vida: criar, aprender, ler, comprar, trabalhar… nada mais se faz como se fazia há 20 anos! Vinte anos é pouco tempo. Chegamos a ter a sensação de quem levou uma rasteira. Num momento enxergávamos tudo em uma determinada perspectiva, no momento seguinte… tudo mudou. E em várias frentes, porque ela permeia todos os campos de atuação, interfere no comportamento das pessoas como grupo, mobiliza o poder.

Como lidar? As propostas atingem uma gama vastíssima de opções. Desde os altamente conectados, que defendem o uso dos aparelhos para tudo, até os extremamente conservadores, que ainda acreditam que isto é apenas uma fase e que vai passar.

Acontece que vai passar, mesmo. Não porque vamos deixar de utilizar, mas porque esta tecnologia vai se incorporar em nossa vida de tal forma que vamos deixar de notá-la. Acha que não? Então veja outra tecnologia que faz parte de nossas rotinas, mas que só nos apercebemos dela quando ela falta: a energia elétrica. Em meados do século XIX tínhamos velas e lampiões, foi quando uma nova tecnologia entrou em nossas vidas, ou melhor, na vidas de nossos bisavós, trisavós, para nunca mais sair. Hoje, pisamos em um recinto qualquer e já batemos a mão no interruptor… e faz-se a luz!

Em algum tempo, e já estamos muito próximos disto, a internet estará incorporada ao nosso dia a dia. Continuará a evoluir, continuará a alterar a maneira com que nos relacionamos entre nós e com ela, a gerar mudanças na forma de nosso cérebro funcionar, mas não estaremos mais atentos a isto. Esse processo se apresenta bastante avançado e em contínuo desenvolvimento: redes sociais, nuvem, internet das coisas. Ela vai evoluindo, envolvendo e nos tornando reféns de seu potencial. Para avaliar o grau dese envolvimento basta imaginar o tamanho e a extensão do colapso se ficássemos sem internet por um dia.

person-916181_1280.jpg

A internet é conhecida como democrática. Qualquer um pode criar, testar, publicar. Eu posso criar este texto, disponibilizar para que você leia. Você pode criar um aplicativo que vai mudar a vida de milhares de pessoas, além das fronteiras geográficas, de língua, de credo. Alguém pode criar equipamentos, realizar pesquisas em conjunto com outras pessoas, ainda que estejam geograficamente distantes. Surgem os conceitos de cocriação, economia compartilhada. O empreendedorismo floresce. Os pequenos se agrupam. A educação é à distância. Não sobrou pedra sobre pedra. Os invisíveis, em grupo, ganharam poder. O indivíduo ganhou poder de expressão.

Este poder precisa ser abraçado. Não estamos acostumados e não sabemos exatamente como proceder em relação a ele. Para que se faça uso da tecnologia em sua totalidade é preciso sair da zona de conforto. É preciso ousadia e disposição. Estes atributos não são exatamente uma constante em nossa sociedade de personalidade mais letárgica.

É neste ponto que podemos focar a abordagem com as crianças. Elas são nativos digitais, nunca conseguiremos ter o entendimento deste novo mundo da forma como elas têm. Eliminar a tecnologia da vida delas é um sonho impossível. Porém, é importante que lhes sejam apresentados os desafios que as tornem sujeitos ativos de posse da tecnologia e das ferramentas. Para que elas percebam o quanto pode ser diferente a interação que têm com o computador, tablet ou mesmo o smartphone, daquela que têm com a televisão, por exemplo. Uma coisa é saber usar a internet e os equipamentos que dão acesso a ela, outra coisa é entender a lógica por trás dela.

Para o adulto é um bicho de sete cabeças, mas para as crianças é muito intuitivo. É como aprender uma nova língua, rapidamente elas se apoderam do conhecimento. Quando aprendem noções de programação, elas entendem o mundo digital em que habitam. Elas percebem que não é mágica, mas a lógica e a ciência que controlam a tecnologia. Ainda que não venham a ser futuros programadores, terão condições de saber com o que estão lidando. Terão uma noção mais clara do potencial da ferramenta que tem em mãos e poderão participar ativamente da evolução desta fantástica tecnologia que está disponível, na ponta de nossos dedos.

Isto é uma coisa que nunca foi solicitada à nossa geração. Para que você iria estudar como funciona um aparelho de rádio ou uma televisão? Mesmo a programação no início da internet. Era campo reservado aos aficionados. Não havia finalidade nenhuma no aprendizado. Aprendíamos a usar o Word e o Excel, na melhor das hipóteses. Hoje convivemos com softwares. Consumimos software 24 horas por dia. Seria prudente conhecer mais a fundo uma coisa tão presente em nossa vida. Há quem diga que os analfabetos do futuro serão os que não sabem escrever ou ler códigos.

Não significa que crianças devam ficar o tempo todo em contato com computadores, não significa que não possam e devam brincar, correr, exercitar. Significa que, além de brincar lá fora, abre-se uma fonte inesgotável de desafios e conhecimentos a serem explorados. Até mesmo na mistura dos mundos online e offline. Aos pobres e já tão atarefados pais vai restar mais uma função: filtrar e escolher estes desafios. Não permitir que a criança permaneça em sua zona de conforto. Mostrar que o computador pode trazer emoções diferentes porque ele vai fazer o que a gente quer que ele faça. Ele permitirá que sejamos agentes, ele nos obrigará a ter atitude e coragem.

© obvious: http://lounge.obviousmag.org/m_de_marina/2015/10/quem-tem-medo-de-tecnologia.html#ixzz3yxG6VVwU
Follow us: @obvious on Twitter | obviousmagazine on Facebook