Folhas de sonho no jardim do solar

Publicação original: Revista keyboard (dez/14)

A história está se fazendo agora, neste exato momento. Se ela será relevante, se outros, no futuro, estarão interessados nela, isso é outra conversa. O fato é que, no momento em que se faz, na hora em que se vive, a história pode parecer bastante mundana. Lá, naqueles dias, que se tornaram anos, no bairro de Botafogo, Rio de Janeiro, os protagonistas não tinham ideia da repercussão que suas vidas teriam no futuro. No momento em que viviam suas inquietações, suas dificuldades, a pequenez de suas rotinas, seus medos e incertezas, sequer sonhavam que você poderia estar lendo, hoje, sobre coias que aconteceram nos 7 anos em que existiu a pensão da Dona Jurema. Tão pouco valia o casarão, tão pouco interessante se julgou aquele pedaço de espaço-tempo, que se demoliu o imóvel e construiu-se sobre o terreno o ícone da nova cultura: o shopping center. Que se consume o ato de consumir.

A trilha sonora é de Adoniran Barbosa: Saudosa Maloca. A maloca de Adoniran nem está no Rio de Janeiro, ela é paulista, mas não importa. O sentimento é o mesmo. De melancolia por um tempo e um lugar “dim donde nóis passemo dias feliz di nossas vida”. Afinal é recorrente: o que passou nos parece sempre melhor, mais bonito e mais feliz. Na realidade os tempos eram difíceis, de incerteza, de mudança, de medo e de ditadura militar em nosso país. Alheio a tudo isto, o casarão onde ficava a Pensão Santa Terezinha, seus dois andares e 84 quartos, sem saber, abrigou um bocado da história da cultura e da música popular brasileira de 64 a 71.

Caetano e Gilberto Gil fazem menção ao Solar na fantástica canção Panis et Circenses. Mandam plantar folhas de sonho em seus jardins. Estas folhas saberiam procurar pelo sol e suas raizes, procurar, procurar. Não poderiam ser mais emblemáticos estse versos. Era uma época de procura., sobre a qual o sociólogo Edgar Morin preconizou: “serão precisos anos e anos para se entender o que se passou”.

A singela pensão atraiu moradores que buscavam independência. Jovens com pouco dinheiro que queriam sair da casa de seus pais e tentar a vida na cidade grande. Oferecia serviços inovadores, como faxina e troca de roupas de cama a preços convidativos e pagamento antecipado, o que eliminava a figura do fiador, mas isto nem de longe explica a feliz coincidência de trazer para baixo do mesmo teto nomes como Caetano Veloso, Gal Costa, Paulo Coelho, Paulo Leminski, Maria Gladys, Betty Faria, Ítala Nandi, Antônio Pitanga, Marieta Severo, Zé Kéti, Gutemberg Guarabyra, Abel Silva, Cláudio Marzo, Mauro Mendonça, Naná Vasconcelos, Paulo Diniz, Darlene Glória. O local transformou-se em um caldeirão de criativos, em um momento em que, apesar dos perigos e do medo, existia uma ânsia por experimentar. O compromisso não era com o consumo, mas com a descoberta. Em todas as áreas, tudo que se desejava eram novas formas de expressão, que significassem liberdade e quebra de padrões. Era o fim dos anos 60.

Experimentavam-se novas relações. As mulheres questionavam os valores do casamento “burguês”: monogamia, fidelidade, ciúme, virgindade. Queriam deixar a condição de apêndice econômico do marido e partir para uma arriscada aventura de vanguarda. O carnavalesco Fernando Pamplona, vítima destes novos costumes, hospedou-se no Solar “curtindo a fossa” de sua separação. Foi o que bastou para que a pensão Santa Terezinha ficasse conhecida pelo nome de Solar da Fossa.

Pronto. Estava definido o cenário. E as histórias foram se sucedendo. Os registros são escassos, o trabalho mais completo sobre a vida no Solar é do jornalista Toninho Vaz. Sua pesquisa, mais de cem entrevistas com ex-moradores, resultou em um livro, que é a fonte primeira de informações.

Foi ali que Chico Buarque conheceu Marieta Severo. Sá encontrou Guarabyra. E Gal Costa hospedou-se quando prestou vestibular sem um tostão no bolso. Precisou de um vale de garrafa de Coca Cola para comprar leite e um pedaço de bolo de fubá. Ali se esconderam os que fugiam da ditadura e do AI-5. Rolavam, entre doses de conhaque Dreher, performances de Naná Vasconcelos, e até filmagem do Cinema Novo: Luiz Carlos Lacerda usou seu apartamento como set de Máscara de Traição. Era terreno fértil para artistas como Hélio Oiticica e Jards Macalé.

Inclusive para aqueles que nem moravam lá, mas frequentavam qunado queriam trabalhar, namorar, conversar e ouvir música. Tinha de tudo. Rock com samba, parcerias inusitadas. Ali Caetano Veloso compôs a canção que inauguraria o Tropicalismo, Paisagem Útil, um ousado, irônico contraponto à canção de Jobim, Inútil Paisagem. Paulinho da Viola conta: “Caetano acabou de cantar e ficou olhando para nossa cara, tentando ler nossa reação. (…) Ficamos achando estranho, pois já era a linguagem do tropicalismo funcionando”. Mais tarde seria a vez de Alegria, Alegria. E o próprio Paulinho compôs Sinal Fechado quando morava no Solar. Paulo Leminski começou a escrever seu famoso Catatau. Tudo girou em torno do novo, da produção cultural de vanguarda, da ousadia.

Em 72 acabava a história do Solar. Um dos últimos moradores, Paulo Romeu descreve seu sentimento de impotência frente à realidade: “Quando a demolição estava acontecendo atrás dos tapumes, a gente passava de ônibus e ficava imaginando os operários encontrando as malas enterradas com os livros proibidos, verdadeiros catecismos anticapitalistas. Tudo agora sacudido por retroescavadeiras e bate-estacas. Ironia do destino.” Sim, ironia que se tenha erguido ali o templo do capitalismo. Eles venceram e o sinal está fechado para nós?

[Fontes: Zuenir Ventura e Toninho Vaz]