Elvis Presley

Texto que compõe a reportagem de capa da Revista Keyboard jan/2015 Escrito em conjunto com o Maestro Marcelo Fagundes

A influência de Elvis na sociedade americana da década de 1950

Década de extremos. Por um lado, a euforia do final da II Guerra Mundial. A economia recupera-se, as políticas tem por objetivo gerar o consumo. De tudo se produz em demasia, desde bebês até carros, casas, eletrônicos. A população muda-se para os subúrbios, constrói-se uma casa a cada 16 minutos. Os carros são necessários para levar os trabalhadores do subúrbio para a cidade. Rodovias são construidas. A televisão chega a 90% dos lares. Armados com os recém inventados cartões de crédito os americanos consomem, imbuídos em manter a economia aquecida.

A vitória na guerra, por outro lado, não gerou toda a paz desejada. No âmago desta sociedade progressista e aparentemente feliz residia o medo. Amedrontados pelo comunismo que tomava o poder em países de grande extensão como a Russia e a China, os Estados Unidos estavam longe de dormir tranquilos. Insufladas pelos pensamentos anti-comunistas, as políticas ditas macartistas vigiavam o cidadão, especialmente grupos minoritários, como os afro-americanos. A cor da pele parecida definir a orientação política. A religião servia como suporte: comunistas são ateus, os Estados Unidos são religiosos. Fugir a este padrão poderia significar perseguição política, perda de emprego, ruína social.

Neste contexto surge uma nova classe: os adolescentes. Até a geração anterior, os jovens tinham que trabalhar para garantir seu sustento. Esta era a primeira geração que ganhava dinheiro com facilidade, trabalhando meio período, cortando grama dos vizinhos, recebendo mesada dos pais. Este dinheiro era para uso pessoal, para sua própria diversão. Eles consumiam roupas, música. Discos. O rádio tornou-se móvel. Tinham seus radinhos de pilha que levavam para onde fossem. Ouviam a música que queriam, longe da influência e vigilância dos pais.

Estes jovens começam a questionar a sociedade em que vivem. A literatura inaugura uma corrente de rebeldia, o movimento beatnik. O cinema personifica o rebelde através de Marlon Brando e James Dean, com suas gangues, blusões de couro, camisetas e jeans.

E a música não poderia ficar atrás. A revolução musical tem um agravante: a segregação racial.

Os ritmos que atraiam a juventude, jazz e ritm’n’blues, eram contagiantes, mas eram negros. Surge o rock’n’roll, uma sonoridade nova, híbrida de gospel, blues, country, boogie e jazz adicionados da guitarra elétrica. O rock encantava a juventude branca dos Estados Unidos, popularizado pelo rádio através de Alan Freed, Chuck Berry, Little Richard. Algumas bandas de cantores brancos faziam tentativas com o novo ritmo, porém economizavam na sensualidade, amarrados pelo padrão conservador e moralista do americano médio. Sam Philips, diretor da gravadora Sun, buscava um branco que cantasse como negro. Ele previa que, se achasse esta pessoa, ganharia um milhão de dólares.

Neste momento um caminhão passava em frente a gravadora. E passava novamente como se a estivesse circulando. O motorista era um rapaz de 21 anos, branco. Tudo o que ele queria era gravar um disco, pagando US$4. Mas este disco acabou por mudar a vida do rapaz, da gravadora, a minha e a sua. O motorista virou rei. Elvis Presley, o Rei do Rock.

Elvis Presley tinha a voz, o swing e a coragem de entregar-se àquela nova sonoridade. Se a música já incomodava a conservadora e religiosa América dos anos 50, Elvis, além de cruzar a fronteira racial, dançava com sensualidade que os adultos consideravam exagerada. Mais ou menos como acontece com o funk hoje, diziam que o rock superestimulava a libido do adolescente. Não era música para a família. Era coisa de preto e pobre. Era a música rebelde que expressava a atitude da juventude. O moço branquinho, olhos azuis, carinha de anjo, ar de inocente, entrou como um tufão e subverteu os padrões. E porque dançar desta forma? Ele respondia: “não sei, senhor, eu apenas danço”.

Ele era uma mistura de sensualidade e bom-mocismo que confundia. Encantava as mulheres que não sabiam ao certo se o queriam como amante ou como filho. Era um rebelde, mas serviu o exército como um bom cidadão americano. Os amigos gostavam dele, era gentil com todos, estimulava os iniciantes. E depois dele, tudo mudou. A música, o jeito de cantar, o comportamento, as roupas. Com seu carisma e talento influenciou músicos americanos e do mundo.

A década de 50 foi inovadora e a carreira de Elvis ficou sujeita e fez uso de todas estas novidades. Surgia a cultura de massa, disseminada através da televisão, que colocou o cantor na sala de estar de todas aqueles casas construídas nos subúrbios, ainda que apenas da cintura para cima, a fim de proteger os padrões morais. Não só a televisão, mas também o cinema foi exaustivamente utilizado.

Ainda que controversa, esta foi uma abordagem de marketing pioneira: uso da cultura de massa, da imagem, criação de objetos, venda de fotos. Seu empresário de toda a vida, Coronel Parker, utilizou toda e qualquer oportunidade para monetizar a carreira de Elvis.

Elvis Presley rompeu fronteiras, abriu portas que nunca mais puderam ser fechadas. Fez mudar a história.

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“Você faz o seu trabalho e eu faço o meu”. Era a filosofia do Coronel Tom Parker, o homem que empresariou Elvis durante praticamente toda a carreira. O holandês de passado nebuloso, é um enigma. É considerado desde gênio até psicopata.

Nascido Andreas Cornelius van Kuijk, veio para os Estados Unidos com 18 anos. Iniciou sua carreira de empresário no final dos anos 40, agenciando o cantor country Eddie Arnold, Minnie Pearl e Hank Snow. Tornou-se agente de Elvis em 1955.

Há quem argumente que ele foi responsável pelo sucesso de Elvis e por mantê-lo tanto tempo na mídia. Sua genialidade teria ajudado a criar o patrimônio que até hoje rende frutos. Segundo alguns historiadores a relação dos dois era profissional, sem nenhuma intimidade, e suas conversas eram restritas aos assuntos da carreira de Elvis. Acreditam que o sucesso do Rei do Rock deveu-se ao feliz encontro do talento incomum de Elvis com a genialidde do Coronel.

Os críticos, porém,  afirmam que ele aproveitou-se de Elvis, seu único cliente, cobrando percentuais abusivos – enquanto a média era de 10%, o Coronel chegou a receber 50% dos ganhos do cantor. Exigia demais, agendando dois shows na mesma noite e superexpondo a imagem de Elvis nos sucessivos filmes –  foram mais de 30. Acham que o Coronel, além de não estimular, apoiar seu cliente, estabeleceu com ele uma relação doentia, baseada em maus tratos, além de ter ignorado o consumo crescente das drogas. Elvis teria sido um prisioneiro emocional do Coronel, da sua ganância e das suas enormes dívidas de jogo.

Nunca foi realizado um show de Elvis fora dos Estados Unidos. Isto teria acontecido porque o Coronel Tom Parker não poderia sair do país, por ser procurado pela justiça. Ele estaria envolvido no assassinato de uma mulher, e este teria sido o motivo de sua saída da Holanda. Mas estas são conjecturas, nada se sabe de concreto.

Depois da morte de Elvis, o Coronel passou a promover o Hotel Hilton em Las Vegas. Faleceu em 1997, aos 87 anos.  

https://www.youtube.com/watch?v=9SDlhORJLKg

http://www.trackedinamerica.org/timeline/mccarthy_era/intro/

http://www.cliffsnotes.com/more-subjects/history/us-history-ii/america-in-the-fifties/the-affluent-society

http://www.history.com/topics/1950s

http://texto2-rej.blogspot.com.br/

http://satorilivraria.com/Filosofia/A-Geracao-Beatnik-e-a-sua-capacidade-de-ignorar-a-sociedade-norte-americana-dos-anos-50

http://www.shmoop.com/1950s/culture.html