Chiquinha Gonzaga: uma vida ao som da transgressão

1Publicação original: Mamatraca (ago/13) | Obvious (set/14) | Revista Keyboard 15 (out/14) | Acidez Crônica (out/14)

A propaganda usou o funk Lek-lek para anunciar um carro. Isto foi considerado uma afronta à erudição da indústria da comunicação no Brasil. Onde já se viu? Um ritmo da periferia, das camadas mais baixas da população, misturado com um produto nobre e destinado à elite.

Na verdade, já se viu. Há mais ou menos 100 anos. Chiquinha Gonzaga levou o Corta Jaca ao Palácio do Catete. Pelas mãos de Nair de Teffé, na época, primeira dama do país. Não menos revoltada ficou a sociedade da época. Rui Barbosa foi aos jornais: “Aqueles que deveriam dar ao país o exemplo das maneiras mais distintas (…) elevaram o corta jaca à altura de uma instituição social. O corta jaca é a mais baixa, a mais chula, a mais grosseira de todas as danças selvagens. A irmã gêmea do batuque, do cateretê e do samba.”

E Chiquinha? Levou uma orquestra de 100 violões ao teatro. O violão, um instrumento de bêbados e boêmios. E ainda cantou: ó abre alas, que eu quero passar. Esta mulher, bastarda, mulata e filha de mãe solteira, foi uma pioneira. Uma das primeiras a sustentar-se com seu trabalho, primeira a compor para o teatro, a fundadora de nossa música popular, a criadora das marchinhas de carnaval, a primeira maestrina… Ela própria representava os dois segmentos da sociedade da época: a fidalguia do pai, descendente de uma alta família do Império, e a negritude plebéia de sua mãe. Esta mistura ela levou para a música e fundiu o ‘culto’ ao ‘inculto’.

O casamento arranjado pelo pai nos seus 16 anos durou até que o marido impôs a condição: a música ou eu. A resposta inesperada: “Pois, senhor meu marido, eu não entendo a vida sem harmonia”. Descasada, e declarada morta pela família, com três filhos para alimentar, Chiquinha Gonzaga passou a dar aulas e trabalhar nas lojas de música, demonstrando partituras ao piano. O filho mais velho costumava ir com ela, tocava cavaquinho por alguns trocados. Casou-se novamente, neste casamento teve mais uma filha. Mas não suportava as traições do companheiro e mais uma vez seguiu sozinha.

O piano era um instrumento que carregava uma forte simbologia no Rio Janeiro do século XIX. Um piano na sala conferia ao seu dono o status de nobreza, poder, cultura e boa linhagem familiar. Os investimentos na educação das meninas eram direcionados para prepará-las para a arte da sedução: aulas de boas maneiras, canto, piano, bordados e tudo mais o quanto fosse necessário para garantir a conquista de um bom marido. Era a forma de garantir o funcionamento da economia e a adequada transmissão dos bens.

As músicas nas salas e recitais familiares eram importadas da Europa. Nos bares, porém, as influências eram outras. Os ritmos dos negros mestiços, de compassos marcados, nas gafieiras, cinema e no teatro de revista, mas não permitidos nos salões, eram executados pelos “pianeiros”. E por estes ritmos se encantou Chiquinha. A convite de Antônio Callado integrou o Choro Cariocacomo pianista, passou a tocar em festas e frequentar o ambiente artístico. Não demorou muito sua estréia como compositora com a polca Atraente. O sucesso de Atraente colocou Chiquinha entre os compositores de destaque e suas partituras foram finalmente editadas, com o retrato da compositora, a bico de pena, na capa. Para que! Isto e mais algumas quadrilhas que a cidade andava repetindo deixou a família Gonzaga indignada. E promovem a queima das partituras, proíbem-na de ver a filha Maria.

Sem dinheiro para roupas, as que vestia ela mesma costurava, nem para os chapéus, mesmo sendo imposição da época as mulheres andarem com a cabeça coberta, Chiquinha usava um laço, e por isso era constantemente vaiada nas ruas pelas outras mulheres. Surge o teatro de revista e a oportunidade de compor para as peças. Ela compõe para ”Viagem ao Parnaso” de Arthur Azevedo. Quando entrega o trabalho, o agente de Arthur diz: “sua música é muito bonita, mas tem que usar um pseudônimo em francês e nome de homem”. Uma mulher não poderia escrever para o teatro. Ela juntou suas partituras e se retirou. Dois anos mais tarde, ela musicou A Corte na Roça, grande sucesso que a faz requisitada por todos os autores teatrais. Na abertura da segunda peça que Chiquinha musicou ela rege a Banda da Polícia Militar e a orquestra da companhia teatral. Cria-se uma questão gramatical. No dia seguinte os jornais não sabem como chamar a mulher que rege orquestra. Não havia substantivo feminino para maestro!

Mas como manter tal gênio e paixão distante de causas que podem apaixonar? Envolveu-se no movimento abolicionista e, de casa em casa, vendia partituras, juntando fundos para a Confederação Libertadora alforriar escravos. Envolveu-se na defesa da causa republicana. E foi uma das criadoras da SBAT, para garantir que os autores recebessem os direitos autorais, que acabavam por ficar nas mãos das grandes editoras.

Ela compôs a primeira marcha rancho para O Cordão Rosa de Ouro: Ó Abre Alas. E musicou para o teatro de revista a opereta Forrobodó, que foi um grande sucesso na época e vem sendo remontado até hoje.

Depois do sucesso profissional, ela encontrou o amor. Mas não poderia ser qualquer amor. Ela teria que transgredir, novamente. Chiquinha encontra Joãozinho, que seria seu companheiro até o final da vida. Estava com 52 anos de idade e João tinha 16. Mudou-se com ele para Portugal e quando voltaram ao Brasil, ela o apresentava como filho.

De tudo o que define Chiquinha Gonzaga, paixão é a palavra mais poderosa. Apaixonar-se pela vida, pelas causas, pelos ideais. Manter esta paixão viva. Viver esta paixão.

Para escrever este texto eu utilizei várias fontes: o site da Chiquinha Gonzaga, principalmente, e dentro dele alguns artigos em particular: Donato, Sasso, Fortunatti, Lira. Também o Almanaque da Folha de SP.

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