Baby boomers na construção do novo mundo

Publicado originalmente no Blog da Maternativa em jan/2016

Com qual destas situações você se identifica?


Situação 1
Atividade produtiva com o emprego de máquinas simples. Grupos de produtores se organizam e dividem algumas etapas, mas muitas vezes, uma mesma pessoa cuida de todo o processo, desde a obtenção da matéria-prima até à comercialização do produto final. Trabalho realizado em oficinas nas casas dos próprios produtores que dominam muitas (se não todas) as etapas do processo produtivo.

Situação 2
Os trabalhadores perdem o controle do processo produtivo, uma vez que trabalham para um patrão (na qualidade de empregados ou operários), perdendo a posse da matéria-prima, do produto final e do lucro. Esses trabalhadores controlam máquinas que pertencem aos donos dos meios de produção.

Estes dois parágrafos foram retirado da Wikipédia, do verbete Revolução Industrial. A situação 1 é pré-revolução, característica do século XVIII e a situação 2 descreve a forma de produção dominante durante a Revolução Industrial, século XIX.

Se eu conheço bem as Maternativas, a identificação foi muito maior com a primeira situação. Parece que estamos involuindo, voltando no tempo. Será? Eu faço um convite para todas vocês. Observem com muita atenção. Vivemos um momento muito rico de transformações. E elas estão acontecendo muito rápido.

É consenso entre os estudiosos que a Revolução Industrial acabou, e se quiserem uma data, podem considerar 1957, quando pela primeira vez o número de trabalhadores do setor de serviços ultrapassou o número dos trabalhadores da indústria. Foi nos Estados Unidos.

A partir deste momento, iniciou-se um grande desenvolvimento tecnológico, o conhecimento passou a valer mais do que a força física, a produção em massa torna-se menos interessante, as mulheres entram no mercado de trabalho com mais força. É este o contexto vigente quando nascem os baby boomers, geração que tem hoje entre 50 e 70 anos, vítima de todos estes fenômenos, que Alvim Toffler chamou de “terceira onda”.

O século XXI marca o final desta história. O fim da onda de Toffler. Estamos todos um pouquinho perplexos, independente da faixa etária. Mas nós, as baby-boomers, na entrada do segundo milênio, perdemos as dimensões tempo e espaço, que eram conceitos que nos limitavam, mas com os quais estávamos acostumadas e, portanto, confortáveis. Observamos uma desvalorização da experiência que tínhamos. E tivemos que nos adaptar rápido às novidades. Iniciamos nossas carreiras sem nenhum recurso computacional, sem celulares, sem internet. De repente, tudo foi acontecendo, evoluindo e, em 10-20 anos, nada mais era como antes. A analogia que tenho para este processo é de uma pessoa que leva uma rasteira, ou escorrega em uma casca de banana: em questão de segundos, a perspectiva é toda nova. Você vai tranquilamente caminhando e vendo o caminho a sua frente, de repente, você só enxerga o céu!

Os nativos digitais circulam com muito mais desenvoltura nas tecnologias, claro. Mas nós estamos trabalhando e, principalmente para quem empreende, esta é uma idade extremamente produtiva e de realização. Veja o resultado deste estudo da Endeavour: Os jovens de até 28 anos representam apenas 5,5% dos empreendedores à frente de Scale-ups no Brasil. A idade média de um empreendedor de alto crescimento, na verdade, é muito mais alta: 47 anos.

Sobe no salto, então, baby-boomer, que você está dentro. Veja mais:

O SEBRAE tem uns cadernos com estatísticas sobre empreendedorismo que são muito bacanas. Tem um estudo sobre a distribuição por faixa etária, do qual eu peguei o seguinte texto:

De acordo com o IBGE, entre 2001 e 2013, o número de Donos de Negócio no País, que compreende empregadores e conta-própria, cresceu 15%, passando de 20,4 milhões para 23,6 milhões de pessoas. Enquanto as pessoas mais jovens (com até 29 anos) apresentaram decréscimo em termos absolutos, passando de 4 milhões para 3,4 milhões – um recuo total de 14% – as pessoas a partir dos 30 anos apresentaram expansão – aumento de 23% em 2013 com relação a 2001. O forte crescimento verificado nos Donos de Negócio a partir dos 30 anos no período foi impulsionado pela faixa etária de 50 a 59 anos, que apresentou crescimento de 48%. Também o número de idosos Donos de Negócios (60 anos ou mais) contribuiu com esse aumento – elevação de 39% de 2001 a 2013.

Estes são números totais, homens e mulheres, e os homens ainda são maioria em todos os segmentos etários, porém a participação das mulheres na TEA (Taxa de Empreendedorismo Inicial) chega a 51%. Dado que a TEA é considerada a “porta de entrada” no empreendedorismo, a elevada participação feminina nesse grupo de “Empreendedores Iniciais” indica que a proporção das mulheres deverá continuar crescendo, entre os efetivos Donos de Negócio, nos próximos anos.

Precisamos entender como é grande todo este processo que vivemos. Temos vantagens, sim senhoras [sem trocadilho], entre elas o privilégio de ter acompanhado todo este processo. Nós conhecemos a história. Isto nos capacita para fazermos parte da construção do mundo novo, afinal, nós criamos as bases. Estas mulheres millennials são as nossas filhas. Sinal que entendemos do traçado, hein? Sabemos crescer uma revolução.

Autores como Jeremy Rifkin, Umair Haque, que analisam estes novos tempos, descrevem uma sociedade com novos valores, em que a economia compartilhada floresce em contrapartida aos valores puramente capitalistas. Sustentam um novo papel para as empresas como colaboradoras na construção de uma nova ordem. Assim como a Revolução Industrial inaugurou o capitalismo, esta nova revolução apregoa o seu fim.

A hora é de se abrir para novos conceitos. Esquecer as dicotomias capitalismo x socialismo, direita x esquerda. Estes conceitos não servem mais. Instituições não servem mais. Em momentos de transição, o que mais aparece são perguntas. Questionamos, junto com nossas filhas, os relacionamentos, as questões de gênero, as questões ambientais, a exploração do homem, a falta de ética. Não sabemos exatamente o que queremos, ainda não tivemos tempo para estabelecer estes novos parâmetros, mas temos certeza de que o que está disponível não nos interessa mais.

Estamos criando uma nova sociedade. As mulheres estão profundamente envolvidas neste processo. A responsabilidade é grande. Empodere-se e mostre ao mundo o valor baby-bommer!