Começo, meio e fim

Começo pelo jardim. Era pequeno, porém haviam algumas árvores, altas e antigas. A casa de madeira, muito simples. As pessoas passavam por ali, mal olhavam. Nada chamava a atenção. Sonhava. Sempre com um homem. Alto, forte. Assim como as árvores.

Passavam os dias. Muitas vezes quentes, com zunidos de insetos de verão. Dormência de calor. Preguiça. Outras muitas vezes, frios. Calafrios, tremores. Preguiça invernal de sair do lugar, de mover, de andar.

Cantava. Porque os males espantava, e quantos males! quantos fantasmas! Sua companhia invisível naquela casa.

Brincava. Que assim o tempo passava. Sempre só, que era mais fácil, não criava problemas. Assim nada a perturbava.

Pensava um dia, quem sabe, correr mundo, conhecer américas, europas, eurásias. Fascínios alterados, o futuro e o passado. Conhecimentos vagos, desejos velados.

Do fundo do poço vinha água que lavava, que limpava. Labuta de todos os dias, e dia sim, dia não, ela chorava. E dia sim, dia não, ela se alegrava. Por tudo, por nada, por saber, por não saber.

Queria crer e cria. Queria ter cria. Menino e menina para dar mais trabalho ao trabalho de todo o dia. E o homem com quem sonhava é quem vinha, como príncipe mais do que encantado, livrá-la e salvá-la e vinha dar-lhe a cria, o menino, a menina que ela tanto queria.

Ele tiraria a água do poço tão fundo, ela olharia da janela, a barriga já grande do menino.

A casa era de madeira, o poço bem fundo ao lado, quem passa não repara. Ele, forte e alto. Ela ainda sonhava.

Um dia abriu o portão, andou na calçada. A vizinhança estranhou sua ousadia. Ela antes nunca ousara! Vestido vermelho, cor de tijolo, cor de batom vermelho. Ela andou devagar e depressa, com pressa, sem pressa, sentiu vento, sentiu chuva.

Não quis mais voltar. Quis sumir no mundo. Quis pisar chão, ser hippie e beatnik. Não pensou mais no príncipe desencantado. Estacionou na Marechal Floriano, pegou um Ligeirinho para a rodoviária, desceu a serra, foi para a ilha.

Agora vende artesanato, já tem cinco tatuagens. Acho que aquele poço secou. Conheceu dez ou quinze príncipes. Dez ou quinze vezes se encantou e desencantou. Dia sim, dia não, toma banho de mar, de sal e de sol. A casa é de madeira, na beira do mar, na parte que o mar não vai levar. E aí ela vai ficar, ela e a cachaça com caju, até cansar, até casar ou mudar para madagascar.